Revista Veja: o temor como mecanismo conservador na esfera pública midiatizada

Dennis de Oliveira
Marta Regina Maia

Introdução

A importância da revista Veja no cenário nacional pode ser mensurada pelos próprios dados estatísticos da mesma1: 900.547 de assinantes e 200 mil revistas vendidas em bancas, o que representa cerca de 10 milhões de leitores, já que cada edição é lida por mais de uma pessoa. Ela é a quarta revista de informação mais vendida no mundo, perdendo somente para as norte-americanas Newsweek, Time e US News & World Report (SCALZO, 2003:31). Estes dados, analisados em relação ao Brasil, que tem pouco hábito de leitura, expressam a capacidade de circulação e conseqüente influência da revista na sociedade.

A publicação, voltada especialmente para as classes A e B, movimenta hoje cerca de 2,5% do volume total da receita de publicidade no Brasil, o que representa mais de 10 mil páginas de anúncios por ano. Mas nem sempre foi assim. Lançada em 9 de setembro de 1968, próxima a edição do AI-5 (Ato Institucional nº 5), Veja enfrentou problemas em seus primeiros anos de funcionamento. Matérias críticas à Ditadura Militar sofreram forte censura por parte do governo federal, já que teve cerca de dez mil linhas de texto cortadas e dois números censurados2. A saída, no final de 1975, do jornalista Mino Carta da chefia da revista, o aumento do número de assinantes da revista e o crescimento da industrialização da comunicação no país contribuíram para a alteração de seu rumo editorial, que passou a ter no marketing um dos principais mecanismos de funcionamento, isto ainda no final da década de 70.

Atualmente, o volume de publicidade apresentado pela revista reforça a relação entre consumo de bens e consumo de informações de um setor da sociedade identificado como “classe média”, que necessita de certos parâmetros de conhecimento comum com o intuito de socialização e ainda necessita conhecer as últimas novidades comerciais para satisfazer a insaciável vontade de adquirir bens materiais e simbólicos que possam dar sustentação ao seu modus vivendi. A informação passa a ser então mais um produto a ser consumido.

O processo de comunicação comporta três níveis de angulação, denominados nível massa, grupal e pessoal (MEDINA, 1978:85). Estes atuam de maneira relacional, com certa predominância conjuntural de um sobre o outro. O nível massa apresenta-se especialmente em uma sociedade em fase mais avançada de industrialização e visa atender aos interesses da população, ou aos do público-leitor – no caso das publicações jornalísticas. Já o grupal atende mais diretamente aos anseios da empresa, desde os seus editoriais, passando pela definição de pauta, edição e veiculação de determinados conteúdos. O nível pessoal relaciona-se aos “grandes nomes” do jornalismo e serve para fidelizar determinado público aos veículos, não ferindo os princípios de funcionamento das empresas: “o gênio individual segue tendências de consumo de massa e não vai contra o nível-empresa porque senão seria dispensado daquele jornal”. (MEDINA, 1978:89)

Para atender aos interesses de seu público-leitor, a revista também age sob a égide da angulação grupal, já que não hesita em realizar verdadeiras campanhas para atingir a esse fim. Nas eleições presidenciais de 20023, por exemplo, ela demonstrou claramente os perigos da eleição de um presidente operário (no caso, Luís Inácio Lula da Silva). Um exemplo desta trajetória pode ser o da edição de 18 de julho de 2002, que traz na capa os candidatos José Serra e Ciro Gomes, com a imagem de Lula ao fundo e a seguinte pergunta “Quem vai ser o anti-Lula?”, em uma matéria que tenta mostrar qual dos dois candidatos têm mais condições de derrotar o operário.

Na edição de 25 de setembro do mesmo ano, já dando como certa a vitória de Lula, a pergunta de capa é: “O PT está preparado para a Presidência?”, em que tenta reforçar a divisão entre as tendências dentro do partido, e praticamente orienta como deveria ser a alteração de rumo da política do Partido dos Trabalhadores, já que tal mudança “exige aprendizado, alteração de paradigmas mentais e a recusa de toda a agenda ideológica que o PT seguiu desde sua criação, há pouco mais de vinte anos”. A tão propalada imparcialidade da revista (propagandeada por ela mesma) acaba sendo derrotada pelas angulações que dá às suas matérias.

O preconceito em relação ao presidente recém-eleito torna-se visível na edição de 30 de outubro de 2002. Ao comentar sobre a esposa do presidente, o texto estabelece uma relação moral entre a atuação política e pessoal do presidente: “Do ponto de vista político, a grande prova de persistência de Lula foi chegar à Presidência depois de três campanhas fracassadas. Na vida pessoal, espetacular mesmo foi ganhar o coração da viuvinha loira, de olhos esverdeados e lábios sedutores. Antes mesmo de conhecê-la, o então incipiente dirigente sindical já alimentava pensamentos concupiscentes em relação a ela, embalado pelas descrições de um motorista de táxi, cujos serviços costumava usar, que louvava a beleza da nora, viúva de seu filho recentemente assassinado. Os destinos se cruzaram quando ela foi buscar um atestado no sindicato, e ele encontrou a oportunidade de realizar suas fantasias. Grudou até conquistá-la”.

Outro fenômeno importante, que indica a capacidade de circulação da revista, é a chamada “durabilidade” (KUCINSKI, 1998:33) da mesma, pois a sua leitura não se esgota imediatamente à sua edição, indo para as salas de consultórios médicos e odontológicos, academias, salões de beleza, bibliotecas, sendo inclusive muito utilizada para a produção de trabalhos escolares.

As principais matérias da revista expressam, portanto, a defesa dos interesses dos valores da classe média, “captando, processando e realimentando os seus temores” (KUCINSKI, 1998:33). A Veja cumpre, assim, o papel de utilizar os temores de um segmento social marcado pela instabilidade e medo – portanto, permeável ao conservadorismo – como uma das marcas que pontuam o debate na esfera pública midiatizada.

A esfera pública midiatizada

Este trabalho tem como um dos seus pressupostos a visão que o teórico Jurgen Habermas (1984) tem da relação esfera pública e mídia. Segundo ele, a formação de uma esfera pública em que sujeitos se reúnem livremente para discutir problemas coletivos é uma das características mais marcantes da sociedade moderna e responsável por parte significativa das conquistas políticas democráticas. Graças a isto, formou-se uma consciência crítica em relação aos poderes tradicionais, particularmente os valores religiosos.

Um dos sustentáculos desta esfera pública foi a imprensa. Para Ciro Marcondes Filho (2000), a primeira fase do jornalismo pode ser considerada como a do “jornalismo da ilustração”, momento em que as atividades jornalísticas eram realizadas no sentido de defender uma causa (seja ela política ou estética) e os periódicos atuavam no sentido de organizar grupos com posições afinadas para uma intervenção na esfera pública. Observa-se isto nos primórdios da jornalismo brasileiro: o primeiro jornal brasileiro, o Correio Brasiliense, fundado em junho de 1808 por iniciativa de Hipólito da Costa, era produzido em Londres porque o seu objetivo central era a defender a independência do Brasil. No mesmo ano, em setembro, a Corte Portuguesa instalada no Rio de Janeiro, lança o Gazeta do Rio de Janeiro, jornal abertamente oficial com claro objetivo de ser porta-voz oficial da monarquia lusitana (SODRÉ, 1988).

Este jornalismo da ilustração permaneceu ainda longos anos no país, mesmo após a independência. No século XIX, jornais republicanos e abolicionistas circularam nas principais cidades e seus editores perseguidos e punidos. Ao lado destes, jornais monarquistas e defensores da ordem vigente de então disputavam o debate na nascente esfera pública.

Porém, paralelamente a este processo de crescente construção do debate público por meio do jornalismo, a atividade jornalística foi se articulando paulatinamente de forma comercial. Ciro Marcondes Filho (2000) credita a passagem desta primeira etapa do jornalismo da ilustração para o jornalismo mercantilizado à inserção da publicidade nos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, as tecnologias de comunicação avançam permitindo um crescimento nas tiragens dos jornais impressos, bem como o surgimento de outros meios, como o rádio. A busca de maiores tiragens e o deslocamento do objetivo central do jornalismo da defesa de uma idéia ou uma “causa” para a reprodução do capital operou esta transformação radical da atividade. A iniciativa de lançar um periódico passa a ser guiada por interesses mercadológicos. O jornalismo transforma-se em uma atividade empresarial.

Com a expansão do alcance do jornalismo, a própria esfera pública se expande. É evidente que os jornais nos seus primórdios tinham baixas tiragens e alcançavam um pequeno número de pessoas. Por isto, a esfera pública no seu início era também restrita. A sua ampliação acompanha a própria evolução da circulação das informações. Entretanto, esta ampliação tem uma conseqüência em termos qualitativos do debate público. Habermas explica este fenômeno da seguinte maneira:

“Em comparação com a imprensa da era dita liberal, os meios de comunicação de massas alcançaram, por um lado, uma extensão e uma eficácia incomparavelmente superiores e, com isso, a própria esfera pública se expandiu. Por outro lado, assim, eles também foram cada vez mais desalojados desta esfera e reinseridos na esfera, outrora privada, do intercâmbio de mercadorias; quanto maior se tornou a eficácia jornalístico-publicitária, tanto mais vulnerável eles se tornaram à pressão de determinados interesses privados, sejam individuais, sejam coletivos” (1984:221).

A ampliação da esfera pública graças ao crescimento da mídia trouxe para esta instância ações e seus respectivos valores que estavam alojados em uma esfera privada: as ações de consumo. Como o jornalismo se expandiu graças à inserção da publicidade e também à sua transformação em uma atividade comercial, há uma mudança qualitativa significativa na esfera pública operada por esta ação da mídia: a esfera pública foi colonizada pelo consumismo. Para Francisco Rudiger, a figura do cidadão “foi eclipsada pelas do consumidor e do contribuinte. A procura do consenso político pelo livre uso da razão individual teve de retroceder perante o emprego da mídia a serviço da razão de estado e a conversão da atividade política em objeto de espetáculo.” (2001:26)

Diante disto, o jornalismo passou a construir um metadiscurso para legitimar-se como o operador da esfera pública sem, entretanto, aparentar intervenções qualitativas na mesma. De participante no debate público, o jornalismo se propôs a ser o árbitro do debate – e para tanto, o discurso de sua legitimação incorporou categorias como neutralidade e imparcialidade, todas fulcradas em uma concepção positivista de apreensão da realidade. As técnicas de redação e edição jornalísticas se consolidam a partir deste deslocamento do papel do jornalismo.

Para Ciro Marcondes Filho (2000), tais técnicas objetivam enquadrar as informações em mercadorias padronizadas que entram em circulação na sociedade mercantil. Marcondes Filho considera que a notícia nada mais é que um produto da transformação do fato (matéria bruta) em notícia (mercadoria), operando nesta transformação mecanismos de manipulação legitimados pelas técnicas consagradas como universais do jornalismo.

O jornalismo opera com mecanismos constantes de seleção e combinação. Seleção na pauta que nada mais é que a escolha dos assuntos que merecem ser noticiados (e, portanto, repercutidos na esfera pública), na captação das informações, por parte do repórter (escolha de fontes, direcionamento das perguntas, entre outros), na redação na escolha dos elementos informativos provenientes da captação que serão inseridos na matéria e os que serão descartados e na edição, na escolha das matérias que merecerão destaque e as descartadas. Combinação na forma de articulação das informações, definição das editorias, agrupamento dos textos, fotos e títulos, entre outros. Estes dois processos – seleção e combinação – constróem sentidos.

Estes mecanismos, por si só, desmentem o mito da imparcialidade e neutralidade jornalísticas. O jornalismo é, por sua própria natureza, uma construção ideológica da realidade. Ao legitimar-se como árbitro e não como um participante do espaço público, esta construção ideológica da realidade se consolida como o referencial do debate público.

Retomando Habermas (1984), percebe-se que o crescimento desta esfera pública midiatizada dá-se por uma crescente incorporação de valores de consumo. É evidente que este jornalismo mercantil, então, constrói ideologicamente a realidade e impõe esta construção como referência para o debate a partir dos valores de consumo. Este controle torna ainda mais intenso quando se percebe uma concentração crescente da propriedade dos meios de comunicação. A monopolização da mídia praticamente torna impossível a pluralidade de idéias e o espaço público se transforma em um mero espetáculo onde a grande maioria é apenas assistente.

O lingüista norte-americano Noam Chomsky (2003), após análise da mídia norte-americana particularmente nos conflitos internacionais, considera que o jornalismo, nos atuais moldes, se assemelha a um “aparelho de propaganda”. Para chegar a esta conclusão, Chomsky constatou que há uma articulação orgânica das empresas de mídia com de outros segmentos de entretenimento, levando valores estruturantes próprios da segunda modalidade de discurso para a primeira; uma confluência de interesses políticos e mercadológicos que atuam na manipulação da informação e, como resultante disto, na expressão por parte do jornalismo dos valores das classes dominantes.

Os efeitos ideológicos desta ação discursiva do jornalismo atuam no sentido de manter intactos os alicerces da sociedade de consumo. No caso do Brasil, uma sociedade marcada por um capitalismo periférico e com brutal concentração de riquezas, a sociedade de consumo é marcada por um restrito grupo que tem acesso aos bens de consumo e uma imensa massa destituída deste acesso. A legitimação desta exclusão é feita, entre outros meios, por um discurso de legitimação do privilégio. Tal discurso opera em duplo sentido. Para os segmentos sociais excluídos o privilégio é visto como sinônimo da competência e como uma possibilidade nunca realizada (“sonho”). Já para os segmentos sociais incluídos um dos mecanismos mais eficazes de controle é o temor, o medo de perder a condição de integrante do sistema de consumo, direcionando estes segmentos para uma posição extremamente conservadora.

Metodologia

Os estudos sobre a influência da mídia na sociedade tornam-se cada vez mais relevantes na medida em que se verifica este espaço como um locus privilegiado de representação da realidade. Outro aspecto que também demonstra a centralidade da mídia na atualidade são os diversos interesses do capital nesta mediação fundamental que é a comunicação.

É o caso da revista Veja, que exerce uma grande influência na sociedade brasileira e tem se caracterizado por um jornalismo que, em geral, acaba não cumprindo a própria visão que defende, que seria a de um jornalismo imparcial, em detrimento de reportagens repletas de adjetivação e fontes próximas aos seus próprios interesses, excluindo inclusive o factual – elemento essencial para a consecução desta visão.

A análise da revista Veja compreende então o período de janeiro a maio de 2004, edições 1835 à 1855, totalizando 21 edições. Os critérios de análise são: o tratamento dado às questões políticas nacionais publicadas na revista, seja na capa ou nas páginas internas, especialmente a partir das fontes utilizadas nas matérias e a lógica de construção das reportagens.

Esta análise baseou-se especialmente no que Noam Chomsky (2003) denomina de “filtros de notícias”. Para ele, a matéria-prima das notícias passa por sucessivos filtros, “resultando apenas o resíduo alvejado e adequado para divulgação” (2003: 41). Neste caso específico optou-se por dois filtros que buscam afunilar o resultado final das reportagens: o filtro das fontes e o filtro ideológico. Nota-se que algumas fontes tem presença destacada, enquanto outras fontes são “anônimas”, geralmente um assessor, um funcionário de gabinete, por exemplo, o que acaba permitindo uma certa liberdade de angulação da matéria. Já no aspecto ideológico, percebe-se uma visão extremamente crítica e até oposicionista ao presidente da república Luís Inácio Lula da Silva.

Em todas as edições há referências diretas ou indiretas a atuação do governo brasileiro, que, neste período, foi contemplado com quatro capas. A partir da leitura das matérias, seguindo a lógica dos filtros ideológico e o das fontes, é possível estabelecer algumas categorias principais de análise, que serão discutidas a seguir.

Filtro ideológico

É importante ressaltar que na análise feita por Noam Chomsky (2003), este filtro político-ideológico é chamado por ele de “anticomunismo”. Este termo foi usado por Chomsky porque ele identifica que se gerou na cultura política conservadora norte-americana um verdadeiro temor ao comunismo, como resultado da Guerra Fria. Por isto, Chomsky considera o “anticomunismo” como a verdadeira religião nacional norte-americana. No caso brasileiro, optou-se por “traduzir” este filtro por “ideológico”, pois verifica-se um temor, por parte de setores mais conservadores, da possibilidade de intervenção um pouco mais radical do Partido dos Trabalhadores.

a) Despreparo
Muitas matérias tentam demonstrar que o governo está despreparado para administrar o país. Geralmente desqualificam discursos e atitudes do presidente e dos ministros, tentando caracterizá-los como incompetentes, ao atribuir adjetivos como: “impulsivo”, “confuso”, “ansioso”, “ambíguo”, “infantil”, “tresloucado”, “espalhafatoso”.

A edição de 7 de janeiro, editoria Brasil, anuncia, de maneira explícita, os desafios de Lula para 2003, apontando inclusive soluções para algumas áreas, como a externa, em que demonstra a vulnerabilidade externa da economia e indica: “O primeiro passo, nesse quesito, pode ser a recomposição das reservas cambiais do Banco Central”. E a opinião não se restringe a esse ponto, indo mais além na avaliação da área social: “No campo social, em que se prometia uma revolução, o governo fez pouco e mal, a começar pelo vexame inicial e desenvolvimento lentíssimo do Fome Zero”. Estas e outras frases, que virão na seqüência, servem para delinear, claramente, a posição da revista sobre o governo.

Ainda nesta edição, mais uma matéria ataca o governo. Ao levantar a questão da reforma ministerial, traça um paralelo com a Anatel, deixando claro que o governo tenta manter as agências reguladoras sob sua tutela, com o intuito de utilizá-las como recurso de negociação política, não poupando adjetivos às alterações no setor: “É um péssimo sinal segundo o qual, no governo petista, as agências reguladoras, além de despertar a ojeriza pública dos governantes, podem também estar sujeitas à politização, e até, ao fisiologismo (…) É lamentável, mas a reforma começou por um órgão que deveria ficar longe do balcão político”.

Na edição de 21 de janeiro, em matéria referente a atuação do presidente no Encontro de Monterrey, no México, onde os 34 líderes das Américas se reuniram por dois dias, a matéria critica o discurso de Lula, chegando a afirmar que o seu pronunciamento, “longo demais”, não atraiu a atenção de nenhum dos 33 chefes de Estado e Governo presentes ao evento. A desqualificação do presidente chega a ser grosseira: “Nem tudo que parece óbvio à primeira vista, porém, assim fica depois de um exame mais detido – e o discurso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirigiu a seus colegas é um exemplo disso”.

Ainda na linha do despreparo, ao comentar a atuação do diplomata brasileiro Adhemar Bahadian, encarregado de negociações técnicas sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), a revista faz uma matéria, com forte teor analítico, em que critica a postura do diplomata, avaliando-a como “desastrosa”, bem ao “gosto de suas roupas”. E preconiza: “Em diplomacia, atividade dominada por liturgias e códigos, fazer um acordo estilístico da gravata com a camisa e medir bem as palavras são algumas das qualidades sociais esperadas dos diplomatas. Na semana passada, Adhemar Bahadian mostrou pouco domínio sobre ambas as características”.

Em 18 de fevereiro, a revista, utilizando uma fotografia destacada de Lula, insere alguns “balões”, com frases que, segundo a própria publicação, representam uma “retórica oca”. A matéria que ainda tem como gancho a queda de popularidade de Lula (na ocasião, com 65,3%), chama a atenção para os discursos improvisados de Lula, mostrando que uma verdadeiro chefe de Estado não pode utilizar esse recurso e, novamente critica a atuação do presidente: “Exagera nas frases bombásticas, flerta com a auto-exaltação – citando pontos de sua biografia como se fossem exemplos para a humanidade – e, em alguns momentos, se aproxima da megalomania”.

“O Brasil andou para trás”, matéria da edição de 3 de março, publica dados do IBGE que mostram a retração da economia brasileira em 2003. A jornalista relaciona o mau resultado com a crise política vivida pelo governo, apresentando uma foto do ministro Antonio Palocci com expressão aborrecida. Novamente a crítica contundente ao governo: “Para qualquer governo, o resultado seria politicamente ruim. Para um governo que prometeu um espetáculo de crescimento, é pior”.

O título da matéria “É Partido ou governo?”, da edição de 21 de abril, denota, mais uma vez, a confusão entre matéria e artigo. A revista afirma que o PT sofre de um defeito congênito. “O de achar que o partido é um prolongamento do governo e que o governo é uma extensão da sigla”. Em relação a estrela de sálvias vermelhas nos gramados do Palácio da Alvorada, a revista faz a seguinte observação: ” A invenção paisagística é exemplo da confusão partido-governo e, também, da falta de cerimônia por parte dos atuais ocupantes do palácio em relação à coisa pública”.

A edição de 5 de maio, apresenta, na linha fina4, uma crítica mordaz: “Até quando decide com maturidade, como no caso do salário mínimo, o governo manda mensagens contraditórias” . Ataca ainda os ministros: “Esse tipo de comportamento dos ministros também produz desconfiança: serão eles ases da demagogia ou simplesmente não entenderam nada do que foi negociado com o FMI?” Além disso usa mais adjetivos para se referir as atitudes dos ministros: ” Uma penca de ministros, numa afoiteza quase infantil”. Outra matéria – sobre a ida do presidente ao programa do apresentador “Ratinho” -, mostra o presidente novamente as voltas com o improviso, agora o foco não é mais o discurso e sim a atitude: “O fato do petista atropelar sua Secretaria de Comunicação, sua agenda e sua assessoria de imprensa para ceder aos seus impulsos, simpatias pessoais e ansiedade para divulgar ‘boas notícias’ seria irrelevante se não fosse por um detalhe: o comportamento do presidente anda causando graves problemas para o governo”. Caracteriza assim o presidente como uma pessoa impulsiva, que não prevê as conseqüências de seus atos.

Além de tentar mostrar o despreparo do governo federal, a revista também demonstra a sua perseguição ao ministro da Casa Civil José Dirceu, o que acaba por gerar um verdadeiro jornalismo de campanha. A matéria da edição de 4 de fevereiro explicita esta posição no próprio título: “Dirceu em semana de regente”, seguido da linha fina: “O ministro da Casa Civil, José Dirceu, incorpora, na ausência de Lula, o papel de chefe de governo”. A matéria tenta mostrar que o vice-presidente José de Alencar teve uma “agenda miúda”, bem ao contrário de José Dirceu, que teria realizado tarefas de um presidente. Já no primeiro parágrafo a análise bastante parcial da revista: “Era como se o país, de repente, tivesse três presidentes ao mesmo tempo, um fora cuidando da política externa, um presidente em exercício sem funções relevantes e, por fim, um ministro com prerrogativas de regente em pleno exercício de suas funções executivas”. Na edição de 3 de março, o ministro tem direito a chamada na lateral da capa da revista, com o título: “O ministro continua encolhendo”. A fotomontagem que abre a matéria mostra José Dirceu literalmente diminuto, sendo observado pelo presidente Lula. A matéria relata os efeitos da crise que envolve o assessor Waldomiro Diniz, revelando uma clara tendência a superestimar os prejuízos causados pela crise à credibilidade do ministro e ao governo, insistentemente classificado como “paralisado” e “desorientado”. Novamente a análise: “Parece irônico que o ministro incontrastavelmente mais poderoso do governo tenha protagonizado uma sucessão de ineditismos desastrosos: é o primeiro ministro a habitar o centro da primeira crise de primeira grandeza do governo petista”. A campanha fica mais nítida ainda na edição de 10 de março, em que José Dirceu é Capa. Em entrevista exclusiva, a manchete “Não vou sair do governo” pode denotar uma atitude autoritária do ministro. Entretanto, a leitura da matéria mostra que esta frase está descontextualizada, pois existe um “mas” que antecede a resposta. É importante a transcrição literal: “Veja – Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha na Terça-feira passada revelou que 67% das pessoas acham que senhor deveria se afastar do cargo… Dirceu – Mas eu não vou sair do governo. Eu não tenho nenhuma relação com esse caso, não tenho nenhuma dúvida em relação a isso”.

b) Crítica moral
Outro elemento utilizado pela revista Veja para atacar o governo Lula é a questão moral. A idéia de atacar o governo petista por este flanco deve-se ao fato de que um dos elementos mais fortes do discurso do Partido dos Trabalhadores é a ética na política. Esta questão não é menor, já que o Brasil tem uma tradição de “privatização” do Estado. A idéia de res publica (coisa pública) é pouco sedimentada na cultura política brasileira. O que se verifica é uma tendência de apropriação privada do aparelho público. Por isto, os discursos político-ideológicos alternativos pregam a ética na política e o combate à corrupção.

A revista Veja tenta, ao criticar o governo aspecto moral, desconstruir este valor agregado ao PT. Na edição de 14 de janeiro, por exemplo, a matéria que reporta à reforma ministerial então em curso no governo, faz uma analogia a este processo, natural em um regime presidencialista, com o “circo”. “A reforma é como uma onda de espuma e Brasília tornou-se um circo para representar as nomeações“, conclui a matéria.

O questionamento às indicações feitas pelo PT misturam tanto uma insinuação de “despreparo” dos quadros do partido com uma idéia de imoralidade, por nomear pessoas não por uma “competência técnica” e sim por afinidade política. “Para abrigar a multidão de companheiros, o governo fez nomeações pouco técnicas, criou ministérios desnecessários e fatiou atribuições que poderiam ou deveriam estar sob comando único”. Há aqui, implícita, uma idéia de oposição entre competência técnica e compromisso político-partidário, o que dá uma idéia de que o saber técnico é neutro. Esta questão será novamente abordada quando da demissão do presidente da Anatel (Agência Nacional de Telefonia) Luiz Guilherme Schymura, pessoa indicada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e explicitamente defensor dos interesses das corporações que compraram as empresas estatais de telefonia no processo de privatização ocorrido no governo do PSDB.

Um assunto que foi muito explorado pela revista neste aspecto de crítica moral foi o caso de Waldomiro Diniz. Esta seqüência de matérias foi direcionada para atingir o ministro José Dirceu. O interessante é que em nenhum momento foi comprovado o envolvimento do ministro nas operações ilegais de Diniz. O fato deste ter sido nomeado como funcionário de confiança por Dirceu já bastou para a revista insinuar que o ministro petista tinha ligações com os negócios escusos de Diniz.

A edição de 25 de fevereiro, matéria “Eleição a qualquer preço”, denuncia que as eleições no Rio Grande do Sul (estado onde o PT governa há vários mandatos) foram marcadas por financiamentos escusos da campanha petista, com participação do esquema de Waldomiro Diniz. Na página 41, a matéria afirma que “o PT aparece, cada vez mais claramente, como um partido que utiliza, em campanhas eleitorais, as mesmas práticas que sempre fez questão de denunciar”.

A revista Veja tentou, de todas as maneiras, dar um ar grandioso a este problema. Tratou-o como uma grande crise política no governo. Na ausência de informações que comprovassem esta hipótese, recorreu a metáfora e aos adjetivos. Frase da matéria “A crise rouba a cena” na edição de 24 de março, logo após uma entrevista com José Dirceu: “Por mais que, do ponto de vista do Planalto, a crise pareça uma marola, ela pode ainda ter energia política para provocar um tsunami, a onda gigante que se forma silenciosamente no fundo do mar e, de repente, irrompe varrendo a costa”. Mais adiante, a matéria diz que “Waldomiro Diniz era um cardeal do governo. Representava o ministro José Dirceu nas negociações com o Congresso”.

Mas na pressa de defender sua idéia com base em um “achismo” materializado em adjetivos jogados sem argumentações consistentes, a revista acaba por cair em contradição. Esta mesma crise política que pode provocar um “tsunami” vira uma crise menor na edição de 31 de março, na matéria intitulada “Ascensão e queda” que trata da queda da popularidade do presidente: “O presidente Lula deixou-se engessar por uma crise menor, Diniz trabalhava com o ministro José Dirceu na Casa Civil, mas era um funcionário de terceiro escalão e foi pilhado em uma traficância chinfrim ocorrida há dois anos”. De “cardeal do governo”, Diniz virou um “funcionário de terceiro escalão” no prazo de uma semana…

Como o caso Diniz não avançou em mais denúncias, a revista Veja procurou outro para atacar o governo pelo flanco moral. Na edição de 26 de maio, a matéria “Quem precisa de inimigos?” fala sobre o desvio de dinheiro do empresário Mauro Farias Dutra que seria amigo íntimo do presidente Lula. Não há nenhum fato que comprove o envolvimento do presidente nas irregularidades cometidas pelo empresário. A Veja tenta envolver o presidente mostrando, em fotos, bens do empresário que poderiam ter sido usufruidos por Lula e insinua que parte deste dinheiro tenha sido desviado para campanhas do PT.

c) Política externa
A política externa do governo Lula também sofre ataques duríssimos da revista Veja. O Itamaraty é um dos órgãos do governo federal em que as diferenças entre o governo atual e o anterior, do PSDB, são mais visíveis. O governo Lula optou abertamente em priorizar uma aliança geopolítica internacional com os países do chamado “Terceiro Mundo” redirecionando a política externa do governo anterior que procurava se adequar ao eixo dos países do centro do capitalismo. Assim, houve um endurecimento nas negociações do governo com os Estados Unidos na formação da Alca e com a Europa na rodada comercial da OMC (Organização Mundial do Comércio). Fiel ao país de origem do seu modelo de revista – a Time – a Veja critica acidamente os contrapontos que o governo Lula faz aos Estados Unidos. Ridiculariza as tentativas do governo de estabelecer esta aliança geopolítica com a periferia do capitalismo.

Na matéria do dia 7 de janeiro intitulada “O governo começa agora”, uma tentativa de balanço e perspectivas do governo Lula, em certo momento, é avaliada a política externa: “no primeiro ano, a diplomacia brasileira optou por uma linha que produz mais barulho que resultado, em especial quando prioriza relações com a África e Oriente Médio e emperra as negociações com a Alca”.

Os Estados Unidos da América, de forma recorrente, é o país apontado como modelo de organização. Quando da demissão do presidente da Anatel, Luiz Schymura, a revista Veja lembra que o presidentre Bush demitiu também o presidente da FCC (a equivalente norte-americana da Anatel), mas que “pela lei americana, nenhum partido político pode indicar mais que três dos cinco conselheiros da FCC e no Brasil, a Anatel possui cinco conselheiros nomeados pelo presidente”.

A polêmica medida de fichamento dos turistas norte-americanos no Brasil, medida tomada como reciprocidade do tratamento igual realizado pelos Estados Unidos em relação aos brasileiros, foi extremamente criticada pela revista. Primeiramente, na edição de 21 de janeiro, a matéria “Terminou em Samba” diz que “num momento em que os Estados Unidos precisam mais do que nunca de segurança, o Brasil oferece razões de sobra para desconfiança – os passaportes nacionais estão entre os mais falsificados do mundo”. Esta mesma matéria elogia a iniciativa do governo estadual do Rio de Janeiro de reunir passistas de escolas de samba para “recepcionar” os turistas norte-americanos no aeroporto para atenuar o “sofrimento” dos mesmos em passar pelo sistema de fichamento. Não menciona, em nenhum momento, que esta iniciativa reforça a idéia de que o Brasil é um dos paraísos do turismo sexual.

Na edição seguinte, o ministro Celso Amorim é entrevistado. Acaba sendo bombardeado com perguntas do tipo: “Com que cara o Brasil se apresentará em Washington se, no caso de uma nova crise financeira, precisar pedir ajuda ao governo americano?” ou “Qual lógica em visitar um país como a Líbia de nenhuma importância estratégica, cujo ditador Muamar Kadafi no ano passado mandou explodir dois aviões lotados de homens, mulheres e crianças inocentes?”. O Brasil é visto, pela revista Veja, como um menino que deve ser bem comportado e obedecer aos seus superiores (EUA) e não andar em más companhias (Líbia).

Dos países do chamado “Terceiro Mundo”, o único que a revista Veja elogia é a Índia. Na matéria “A Índia que o Brasil deveria ver” que trata da viagem do presidente a este país asiático, os argumentos que a revista utiliza para demonstrar que a Índia deveria ser o modelo a ser seguido pelo Brasil são: a abertura comercial agressiva no final dos anos 80 (que, segundo a revista, acabou com a situação de “ostra” que país vivia por ter um controle sobre os capitais estrangeiros), crescimento econômico de 6% ao ano, crescimento da classe média, aumento das reservas internacionais, baixíssima carga tributária (10% do PIB), avaliação positiva da agência Moody’s para investimentos estrangeiros e o custo barato da mão de obra (“Os PhDs podem ter a mesma capacidade, o mesmo equipamento e a distância é uma mera curiosidade geográfica, mas os salários na Índia chegam a ser apenas um quinto do que é pago a um colega de mesmo nível nos Estados Unidos”). Os indicadores sociais desfavoráveis do país asiático demonstrados no início da matéria não são levados em consideração nesta avaliação.

Filtro das fontes

Ao analisar a utilização das fontes na imprensa norte-americana, Noam Chomsky (2003) demonstra que há uma clara parcialidade da mídia, situação semelhante a brasileira. Uma análise mais detida sobre as principais fontes utilizadas no jornalismo produzido pelos grandes meios de comunicação revela uma repetição constante dos mesmos entrevistados. Na Veja isto não é diferente; é possível arrolar os nomes de fontes que são “cativas” da revista e ainda perceber um agravante: a utilização acentuada de fontes anônimas ou não declaradas. Muitas das matérias baseiam-se em informações de um “assessor”, de um “funcionário”, entre outros, o que diminui a credibilidade da revista.

Muitos veículos, com o intuito de tentar mostrar imparcialidade na cobertura das matérias, utilizam o que se denomina fonte especializada. Recurso esse que muitas vezes acaba encobrindo uma determinada visão que o próprio meio defende, já que o conhecimento não é neutro. É só escolher um determinado especialista que defenda uma posição que interessa em determinado contexto e qualificá-lo como um dos estudiosos mais importantes naquele assunto. A Veja também utiliza esta estratégia.

A edição de 3 de março é emblemática em relação a fontes sem identificação. A matéria trata dos efeitos da crise que envolve o ex-assessor de José Dirceu, Waldomiro Diniz. São utilizadas quinze fontes, sendo oito sem identificação: “amigos mais próximos de Dirceu”, “ministro”, “petista de altíssimo coturno”, “amigos de Antonio Palocci e Luiz Dulci”, “graduado assessor do palácio do Planalto”, “assessor enfronhado na vida palaciana”, “amigo de José Dirceu” e “político”.

O caso Waldomiro Diniz, já analisado no item “crítica moral”, alcançou bastante espaço nas páginas da revista, que na edição de 31 de março revela que “a crise política vivida pelo PT deu à oposição um caráter mais popular e unido”. Divulga a realização de um jantar, promovido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, utilizando muitas fontes sem identificação: “um dos participantes”, “um líder tucano” e um “parlamentar”. A jornalista faz questão de transcrever uma piada que zomba de uma suposta falta de inteligência do presidente e do ministro da Casa Civil, José Dirceu.

A edição de 14 de abril questiona a recusa do governo em autorizar a inspeção da fábrica de urânio no Rio, levanta suspeitas sobre a compra de equipamentos no processo de construção desta e ainda chama de “atrapalhadas” as declarações do ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto Amaral. As fontes utilizadas para esta matéria são um “ex-integrante do primeiro escalão do governo federal, um técnico da ONU – ambos sem a citação do nome – além de Anselmo Paschoa, físico nuclear e David Albright, físico norte-americano e Othon Luiz Pinheiro da Silva, um dos coordenadores do programa nuclear brasileiro até 1994. Todos contrários a postura do governo, que sequer foi ouvido pela revista.

Nas matérias analisadas nota-se a presença de dois entrevistados constantes: Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, a coincidência vai além do fato de ambos terem trabalhado na administração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, é que ambos são sócios de uma empresa de consultoria, a Tendências que, inclusive, é a empresa de consultoria mais citada nas matérias analisadas.

Conclusão

A revista Veja, por ser um produto de uma empresa de comunicação, necessita defender determinados valores que dão sustentação à reprodução do capital. Do ponto de vista partidário, a revista coloca-se abertamente em oposição ao governo do presidente Lula e, para expressar este posicionamento, lança mão de estratégias do discurso jornalístico que vão da desqualificação dos membros do governo (despreparo, improviso, impulsividade, entre outros), passando pela questão moral, tentando desconstruir uma identificação da ética na política com o PT e questionando opções políticas do governo federal, particularmente no campo da política externa. Nota-se, ainda, um estreito alinhamento com os valores preconizados pelos Estados Unidos, país constantemente citado como referência positiva em todos os aspectos.

A necessidade de reafirmar seu caráter de oposição ao governo leva a revista Veja, em diversas oportunidades, a sequer tomar alguns cuidados específicos ao fazer jornalístico, como checagem das informações, equilíbrio e diversificação das fontes, além da objetividade. Objetividade compreendida não como neutralidade ou imparcialidade, já que é importante a interpretação dos fatos, mas como apresenta o jornalista Perseu Abramo:

“O reino da objetividade é a informação, a notícia, a cobertura, a reportagem, a análise, assim como o reino da tomada de posição é a opinião, o comentário, o artigo, o editorial. É fundamental separar e distinguir informação de opinião, indicar as diferenças de conteúdo e forma dos gêneros jornalísticos, e apresentar toda a produção jornalística ao leitor/telespectador de forma que ele perceba imediatamente o que é exposição da realidade e o que é ajuizamento de valor” (2003: 41).

A representação que a revista Veja faz da realidade tem grande impacto no debate na esfera pública a ponto da mesma se considerar como a defensora dos interesses da sociedade, chegando muitas vezes a uma certa arrogância. Isto fica demonstrado quando a publicação se vê no direito de criticar, e até mesmo desqualificar determinadas atitudes do governo e ainda sugerir soluções para determinados problemas do país. Neste sentido, acaba tendo uma atuação semelhante a um partido político, como se tivesse um mandato de representação de setores sociais conservadores. Perseu Abramo, ao traçar um paralelo entre os partidos e os órgãos de comunicação, afirma que estes últimos “oscilam entre se auto-suporem demiurgos da vontade divina ou mandatários do povo, e confundem o consumo dos seus produtos ou o índice de tiragem ou a audiência com o voto popular depositado em urna.” (2003: 46)

Bibliografia

  • ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.
  • CHOMSKY, Noam e HERMAN, Edward S. A manipulação do público: Política e poder econômico no uso da mídia. São Paulo: Futura, 2003.
  • HABERMAS, Jurgen. A mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
  • KUCINSKI, Bernardo. A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1998.
  • MARCONDES FILHO, Ciro. A saga dos cães perdidos. São Paulo: Hacker Editores, 2000.
  • MEDINA, Cremilda A. Notícia: um produto à venda: Jornalismo na sociedade urbana e industrial. São Paulo: Alfa-Omega, 1978.
  • RUDIGER, Francisco. “A escola de Frankfurt”, in: HOHFELDT, A., MARTINO, L.C., FRANÇA, Vera V. (orgs) Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001
  • SCALZO, Marília. Jornalismo de revista. São Paulo: Contexto, 2003.
  • SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

Notas bibliográficas

  1. Dados extraídos do site http://vejaonline.abril.com.br, em 10 de julho de 2003.
  2. Informações publicadas no Jornal do Brasil, em 12 de setembro de 1998, Caderno B, p. 2.
  3. Dados obtidos por intermédio de um trabalho crítico semanal sobre a revista Veja, realizado pelo jornalista José Kley Chrispiniano, em newsletters enviadas por correio eletrônico às pessoas interessadas.
  4. No jargão jornalístico é a linha que vem logo após o título, com o objetivo de complementar a informação.

Dennis de OLIVEIRA é professor da Universidade Metodista de Piracicaba e da Universidade de São Paulo.
Marta Regina MAIA é professora da Universidade Metodista de Piracicaba

Colaboração: Bárbara Contó Luz, Fabíola da Silva Cunha e Flávia Marques da Silva, alunas do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de Piracicaba.

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