A História Oral como recurso metodológico na entrevista jornalística

Marta Regina Maia

Resumo

O propósito deste trabalho é discutir como o jornalista pode fugir de um certo círculo vicioso dos meios de comunicação, que, mesmo gerando uma imensa quantidade de informações, acabam focando estas mesmas informações nos centros de poder. Ao estabelecer uma relação dialógica entre entrevistador e entrevistado, ao diversificar as fontes no processo de captação, ao utilizar como recurso metodológico a História Oral o profissional pode contribuir para uma visão mais polissêmica do real.

Palavras-chave
Jornalismo, entrevista, História Oral, metodologia e processos mediáticos e culturais.

Introdução

Uma das características típicas da sociedade atual é a velocidade do fluxo de informações. O advento da Rede Mundial de Computadores contribuiu decisivamente para que este fluxo pudesse circular de maneira intensa, embora as múltiplas interpretações de milhões de acontecimentos em todas as regiões do mundo ainda fiquem restritas àqueles que têm acesso a esta tecnologia. No interior desta situação, entre muitos outros profissionais, encontra-se o jornalista, esse mediador privilegiado dos tempos (pós) modernos. Se ele é também um construtor de significados, como fala a pesquisadora Cremilda Medina (2003, p. 74), é preciso pensar então como acontece essa constituição de sentidos, qual a contribuição deste profissional para a circulação das informações e quais os mecanismos que ele utiliza para a produção jornalística.

O propósito deste trabalho é discutir como o jornalista pode fugir de um certo círculo vicioso dos meios de comunicação, que, mesmo gerando uma imensa quantidade de informações, acaba focando estas mesmas informações nos centros de poder – seja político, social ou cultural – e assim reduz o espectro de pessoas que alimentam o fazer jornalístico. Como permitir-se a este exercício de ir ao encontro da fonte, que, afinal de contas, alimenta cotidianamente este processo. Como o jornalista pode ser um ouvinte, na época do fim da “comunidade dos ouvintes”, como apresenta Walter Benjamin (1993, p. 205).

Ao discutir o fim da arte de narrar, Walter Benjamin ressalta o papel que a imprensa desempenhou neste sentido. “Se a arte da narrativa é hoje rara, a difusão da informação é decisivamente responsável por este declínio” (1993, p. 203), já que a informação necessita da explicação para que seja aceita, necessita ser “plausível”.

A objetivação do relato, motivada principalmente pelo advento da imprensa massiva, reduz a comunicação a um processo de transmissão de informações a partir dos meios de comunicação impressos, em um primeiro momento, até chegar aos meios eletrônicos e digitais, responsáveis pela veiculação de informações para milhões de pessoas ao redor do mundo. Para tentar atingir o máximo de pessoas e poder ser compreensível acabou-se por produzir uma gramática jornalística1 que, em geral, contribuiu para certas normatizações que desconhecem o aspecto subjetivo inerente ao sujeito que fala e também ao sujeito que ouve e reconta.

Nas relações cotidianas entre repórter e fonte há sempre uma disputa em jogo. Metáfora que pode ser usada não para rebuscar o texto, mas para se pensar de maneira axiomática que os interesses são diversificados, já que envolvem as idéias dos jornalistas, das fontes, dos editores, dos empresários do setor, da chamada opinião pública e ainda das crescentes minorias. Além destes interesses abarcam ainda aspectos subjetivos da própria produção textual.

A partir das quatro classificações de entrevista de Edgar Morin2 (1973), é possível refletir a relação entre repórter e fonte, especialmente quando, na atualidade, a notícia também transforma-se em uma mercadoria. Se a base da sociedade é a relação mercantil, então o que se observa, muitas vezes, é a transposição desta relação também no processo de transmissão de informações. A fonte passa a ser vista somente como uma mera “passadora” de informações, suficiente para produzir os caracteres necessários de uma pauta já pré-estabelecida.

Como é possível, então, sair deste padrão e estabelecer uma relação sujeito-sujeito com as fontes? A proposta é tentar fugir da própria armadilha que a sociedade globalizada propõe ao fazer do futuro a condição do presente (SOUSA, 2001) e, assim, de certa forma, tenta impedir que as pessoas vivam o presente de uma maneira mais plena e profícua.

O distanciamento deste presente, muitas vezes, atrofia o processo de comunicação, já que as relações não levam em consideração o momento do encontro, mas sim o caráter utilitário que este “encontro” reveste-se e os resultados que ele pode gerar. Mas como toda situação comporta contradições, é possível recorrer a Edgar Morin que aponta dois tipos de entrevistas em que é possível estabelecer uma relação de fato entre entrevistador e entrevistado: as “neoconfissões” e as “entrevistas-diálogo” (1973, p. 128-129). Ele argumenta que a entrevista-diálogo “é uma busca em comum. O entrevistador e o entrevistado colaboram no sentido de trazer à tona uma verdade que pode dizer respeito à pessoa do entrevistado ou a um problema”.

Pode parecer redundância chamar uma entrevista de diálogo, entretanto o que se pode notar em muitos veículos de comunicação ou é a participação muito acentuada do próprio entrevistador que muitas vezes acaba tendo mais evidência do que a fonte ou ainda o depoimento como uma espécie de referendum de uma situação já pré-estabelecida, a chamada entrevista-rito. Assim, ao estabelecer dialogias no interior da produção jornalística, o profissional contribuirá para mostrar uma visão polissêmica da realidade.

“Partilhar a visão de mundo do outro, dela extrair a utopia humana e ampliar a competência técnica e científica na narrativa solidária não é uma miragem, é uma possibilidade” (MEDINA, 2003, p. 80). Ao romper com determinados padrões, o sujeito jornalista cria uma demanda que a própria sociedade vê-se privada, a de ouvir e ser ouvida. Não mais o distanciamento objetivo3, destituído de subjetividade, mas a aproximação de indivíduos que, independente da partilha ou não de idéias semelhantes, conseguem estabelecer uma relação humana, uma “comunicação pessoal”. (MORIN, 1973, p. 126)

Ainda baseando-se em Edgar Morin, é possível pensar em uma situação mais radical, que são as “neoconfissões”. De acordo com ele, neste caso, o entrevistador se apaga diante do entrevistado, uma vez que “este não continua na superfície de si mesmo, mas efetua, deliberadamente ou não, o mergulho interior” (1973, p. 129). Esta é uma situação mais difícil de ocorrer já que o sujeito-repórter – envolvido com o excesso de trabalho, muitas vezes – tem pouco tempo para ouvir, entretanto, algumas vezes é possível dilatar este prazo em nome de uma comunicação não convencional, mais democrática e relacional.

No exercício jornalístico é possível chegar a “entrevista-diálogo” e as “neoconfissões” por intermédio de um procedimento cada vez mais utilizado no interior da História, e que pode auxiliar a prática profissional que é o recurso da história oral. Esta metodologia, “emprestada” da História, pode conseguir abrir novos campos de atuação para o repórter, que tanto pode ampliar o espaço para a discussão sobre a arte de entrevistar quanto criar novas demandas de pautas, permitindo que fontes não convencionais também sejam ouvidas.

Como o processo de captação de uma entrevista é bem mais amplo e envolve outras questões4, a proposta deste trabalho, portanto, é bastante específica e pretende somente discutir dois aspectos deste processo: a renovação das fontes (o que pode levar a novas abordagens) e qual o tipo de relação que pode se estabelecer entre o entrevistador e o entrevistado a partir da utilização do recurso metodológico da História Oral, que, certamente, só poderá ser usado na produção de matérias de perfil, àquelas relacionadas a datas históricas, investigativas e ainda às de visão de mundo. Em todos os casos da produção jornalística é preciso que o profissional utilize outros procedimentos complementares de pesquisa, o que não será objeto de estudo neste trabalho, tampouco o processo de edição da entrevista, que envolveria outros aspectos da discussão.

Entrevista e história oral

Boa parte dos pressupostos teóricos da relação entre entrevistador e entrevistado advém do campo das ciências sociais, entretanto, no campo jornalístico, também é possível fazer uma pequena revisão bibliográfica sobre o papel da entrevista no jornalismo. Alguns são paradigmáticos como o livro de Cremilda Medina: “Entrevista: o diálogo possível”. Com base nas concepções do filósofo Martin Buber, ela define entrevista como uma “técnica de interação social, de interpenetração informativa (…) pode também servir à pluralização de vozes e à distribuição democrática da informação” (1995, p. 8). A partir das quatro classificações de Edgar Morin, Cremilda Medina define dois grandes grupos: as de espetacularização e as de compreensão. Os subgêneros da espetacularização seriam os seguintes Perfis: do pitoresco, do inusitado, da condenação e o da ironia “intelectualizada”. Já os da compreensão seriam: entrevista conceitual, entrevista/enquete, entrevista investigativa, a confrontação-polemização e o perfil humanizado.

Sem negar a existência de fatores limitadores ao desempenho do próprio jornalista que está sujeito aos mecanismos da empresa jornalística, a autora levanta algumas questões que podem contribuir para a existência do “Diálogo Possível na comunicação coletiva”(1995, p. 44). A mesma autora já discutia a relação narrador-fonte, em outro livro publicado dez anos antes: “Notícia: um produto à venda”. Neste trabalho, ela também reforça a importância do diálogo entre repórter e entrevistado.

Outra referência importante é o livro “A reportagem: teoria e técnica da entrevista e pesquisa jornalística”, de Nilson Lage, que classifica as entrevistas em quatro tipos: ritual, temática, testemunhal e em profundidade (2001, p. 74-75). Ele ainda formula os diversos tipos de circunstâncias que envolvem as entrevistas como sendo ocasional, confronto, coletiva e dialogal, sendo esta última a “entrevista por excelência”.

Muitos outros autores5 ainda discutem o processo de produção jornalística sem, no entanto, apresentar uma diversidade de elementos que poderia contribuir para uma discussão mais específica sobre a relação entre entrevistador e entrevistado.6

Antes de discutir o uso deste método no jornalismo, é importante realizar uma breve exposição do desenvolvimento da História Oral, que é tão antiga quanto a própria História, já que desde Heródoto (século V a. C.) ela é praticada. O uso difundido da expressão História Oral, entretanto, é novo, tanto quanto o gravador; e “tem implicações radicais para o futuro”, garante Paul Thompson (1992, p. 45). No interior da História, já há alguns anos, discute-se a necessidade da ampliação do conceito de documento, que pode ter outras formas de expressão, como os depoimentos orais. No caso, a partir deste referencial concreto, os depoentes fazem parte do amplo leque de fontes que os pesquisadores podem utilizar.

“História oral” é termo amplo que recobre uma quantidade de relatos a respeito de fatos não registrados por outro tipo de documentação, ou cuja documentação se quer completar. Colhida por meio de entrevistas de variada forma, ela registra a experiência de um só indivíduo ou de diversos indivíduos de uma mesma coletividade[…]
Dentro do quadro amplo da história oral, a “história de vida” constitui uma espécie ao lado de outras formas de informação também captadas oralmente. (QUEIROZ, 1991, p. 5-6)

O jornalista, ao realizar entrevistas com o método da história oral, poderá descortinar novos campos de investigação, além de ter acesso a materiais que não são públicos (THOMPSON, p. 1992), isto, em um país que não tem uma política pública eficaz de acervo como o Brasil, pode representar um importante aspecto na diversidade das informações. Mas é também no conteúdo que é possível verificar uma alteração de enfoque surpreendente. O historiador Paul Thompson, ao discutir a importância da história oral levanta uma questão que é passível de se correlacionar com a produção jornalística:

Uma vez que é da natureza da maior parte dos registros existentes refletir o ponto de vista da autoridade, não é de admirar que o julgamento da história tenha, o mais das vezes, defendido a sabedoria dos poderes existentes. A história oral, ao contrário, torna possível um julgamento muito mais imparcial: as testemunhas podem, agora, ser convocadas também de entre as classes subalternas, os desprivilegiados e os derrotados. Isso propicia uma reconstrução mais realista e mais imparcial do passado, uma contestação ao relato tido como verdadeiro. (1992, p. 26)

A importância da observação

É válido, entretanto, abrir um parêntese nesta discussão para um aspecto que antecede à intervenção do repórter em seu labor cotidiano, que é a sua capacidade de observação. Como a entrevista é realizada por um sujeito, torna-se importante pensar quem é este e quais as influências que recebe no interior da sociedade.

Edgar Morin, no livro intitulado Meus Demônios – um exercício de reflexão de sua produção científica a partir de sua autobiografia, – demonstra que as idéias têm uma relação direta com o que ocorre à sua volta e com as opções político-culturais de cada um. Ele diz que não há conhecimento “espelho” do mundo objetivo. “O conhecimento é sempre tradução e construção. Daí resulta que toda observação e toda concepção devem incluir o conhecimento do observador que concebe. Não há conhecimento sem autoconhecimento” (1997, p. 201). Nesse sentido, é interessante que o jornalista faça um mergulho interno e tente, pelo menos, perceber quais os motivos que o levam a seguir este ou aquele caminho.

O jornalista deverá (re)pensar-se neste processo, pois é importante que ele reconheça que existe um “outro”, que pode pensar diferente, que pode ter contribuições desafinadas com o coro do consenso, que pode fugir da visão dualista do certo e do errado e levantar questões diferentes das que estão em pauta, mesmo levando-se em consideração os limites de sua atuação. Se o repórter não consegue tentar entender quem é o outro neste processo, corre o risco de tornar-se um ser “asséptico”, desprovido de sua própria humanidade. O que distingue o homem da inteligência artificial, que tem se tornado uma referência essencial na sociedade atual é justamente a capacidade de se emocionar e de estabelecer relações afetivas que podem reconduzir o sujeito a um estado relacional:

Los ciudadanos occidentales sufrimos una terrible deformación, un pavoroso empobrecimiento histórico que nos ha llevado a un nivel nunca conocido de analfabetismo afectivo… sabemos sumar, multiplicar y dividir; pero nada sabemos de nuestra vida afectiva, por lo que seguimos exhibiendo gran torpeza en nuestras relaciones con los otros, campo en el que cualquiera de las culturas llamadas exóticas o primitivas nos supera con creces. (RESTREPO, 1994, p. 27).

A sensibilidade observadora do profissional pode não provocar rupturas nos megaconglomerados de comunicação, mas pode abrir algumas brechas nas muitas representações unívocas que são passadas pelos próprios meios. Um exemplo de como essa espécie de entorpecimento, muitas vezes, restringe a visão de mundo pode ser fornecido pelo jornalista José Castello (1999), ao relatar uma conversa com Clarice Lispector, em um café carioca, já que levanta uma questão que deveria intrigar a todos que se preocupam com a produção jornalística contemporânea.

“Por que aquele velho é velho?”, ela me pergunta de repente. “Ora, porque deve ter seus setenta anos”, respondo, sempre preso à mania dos fatos, que caracteriza os jornalistas. Ela ri pela primeira vez. E me corrige: “Você ainda se preocupa com números. Assim não pode mesmo escrever”. (p. 26)

Mesmo que este exemplo tenha como referência a questão da produção literária, é possível correlacioná-lo à produção jornalística, mesmo porque as narrativas jornalísticas são produzidas por pessoas que deveriam ter uma visão mais ampla de sociedade, justamente pela função de mediadoras da realidade. Mas como ter uma visão mais ampla de mundo? Pergunta cuja resposta não pode ser absoluta, já que o ser humano também é carregado de subjetividade, entretanto se o profissional da área não conseguir ampliar a sua maneira de pensar o mundo e as pessoas também enfrentará muitas dificuldades em sua labuta diária, encontrará mais empecilhos para uma práxis mais plena. É preciso sair das linhas telefônicas e da Internet e respirar o ar, mesmo que poluído, das ruas, ouvir outras vozes, afinal as pessoas têm muito a dizer, basta terem espaço.7

Limites, fronteiras e possibilidades da História Oral na entrevista

Ao discutir a questão dos gêneros jornalísticos, José Marques de Melo situa a entrevista como um “relato que privilegia um ou mais protagonistas do acontecer, possibilitando-lhes um contato direto com a coletividade” (1994, p. 65). Ele ainda classifica a entrevista na categoria de Jornalismo informativo, juntamente com a nota, a notícia e a reportagem. Vale frisar que a entrevista serve como base de boa parte do material veiculado pelos meios de comunicação e justamente por alimentar o processo de produção, muitas vezes, fica a mercê da rotina profissional. Para sair destes liames inerentes a própria prática é importante sempre refletir e tentar criar certas demandas que possam auxiliar a romper com determinadas visões cristalizadas.8

A colaboração da História Oral na produção jornalística pode se dar não só no aspecto da recuperação do passado, mas também na forma da abordagem. É possível então levantar em quais tipos de entrevistas a utilização desta metodologia é recomendável. A sistematização feita por Cremilda Medina pode contribuir para uma melhor compreensão desta proposta. Ao discutir as entrevistas de compreensão, que tem como questão essencial o aprofundamento, ela propõe a entrevista enquête, confrontação/polemização, conceitual, investigativa, e o perfil humanizado (1995, p. 38). Destas, é possível usar o método da História Oral especialmente nas três últimas.

Conceitual. Neste caso, o repórter está interessado mais em conceitos do que em comportamentos. Investigativa. Como o nome revela, ao investigar algum fato/fenômeno, o jornalista precisa, além dos mecanismos usuais, muitas vezes, de uma determinada fonte (em off) que tanto forneça pistas quanto confirme certos aspectos da investigação. Perfil humanizado. Utilizando as próprias palavras de Cremilda Medina: “esta é uma entrevista aberta que mergulha no outro para compreender seus conceitos, valores, comportamentos, histórico de vida” (1995, p. 18).

Para não correr o risco da generalização, optou-se por estabelecer a relação da História Oral com estes três tipos de entrevistas, entretanto esta metodologia poderá ser usada mesmo quando a entrevista não tiver um caráter autônomo na produção jornalística. O historiador Paul Thompson define três modos pelos quais a História Oral pode ser construída (1992). A primeira refere-se a narrativa da história de uma única vida. No caso da entrevista Conceitual é possível utilizar esse recurso, mesmo que a preocupação se situe no campo da especialização, é possível produzir, por intermédio da história de vida de um especialista (que necessariamente não precisa ser famoso) a história de um determinado campo do conhecimento, por exemplo.

E não é preciso que a narrativa de uma única vida apresente exatamente uma só biografia individual. Em casos importantes, ela pode ser utilizada para transmitir a história de toda uma classe ou comunidade, ou transformar-se num fio condutor ao redor do qual se reconstrua uma série extremamente complexa de eventos. (1995, p. 303)

No caso do Perfil humanizado fica ainda mais evidente a utilização deste caminho, pois ao traçar o perfil do entrevistado deve-se levar em consideração uma trajetória de vida, uma experiência que é singular. O encontro pode representar um momento de mergulho na existência humana, não um mero desfilar de descrições cronológicas da vida de uma pessoa. É importante que o jornalista deixe a sensibilidade aflorar, já que não há regras definitivas para uma situação de empatia que, ao ocorrer, poderá abrir o flanco de muitos entrevistados, sejam famosos ou anônimos.

O jornalista José Castello, ao criticar a forma de tratamento dada à literatura, afirma que esta “é tratada ora como objeto de exibicionismo intelectual, ora como simples mercadoria (…) o melhor a fazer é retornar aos bastidores” (1999, p. 8), ao que ele chama de “sombra”, espaço sem luz, ausência. Paradoxalmente, talvez esteja faltando um pouco de silêncio ao jornalismo. Silêncio justamente afeito ao indizível, aos meandros inexplicáveis da vida humana, afinal em uma narrativa humanizada, algumas palavras podem ceder espaço às sensações (que podem ou não ser descritas).

O segundo modo definido por Thompson é a “coletânea de narrativas”, que pode agrupar várias histórias em torno de temas comuns. A rememoração de datas históricas, por exemplo, pode ser complementada pelos relatos orais de pessoas que vivenciaram determinadas situações. Tanto pode ser usado na entrevista conceitual como na investigativa, afinal muitas questões poderão ser descortinadas a partir de determinados depoimentos. Outro historiador, Alistair Thomson (1997), ao realizar um trabalho de História Oral com antigos sobreviventes australianos da Primeira Guerra Mundial, levantou o véu da hipocrisia que existia na sociedade australiana, que venerava os antigos combatentes como sendo grandes heróis, quando na verdade eles também passaram por situações de medo e de fuga que até o momento de publicação do trabalho de pesquisa ainda não havia sido objeto de discussão no interior da sociedade. Por se tratar de trabalho mais complexo, é preciso que o jornalista (ou um grupo de jornalistas), nesse caso, tenha um amplo domínio das técnicas da história oral, mas se isto não for possível, o profissional da área também poderá recorrer aos centros de pesquisa de história oral que já têm muitas pesquisas realizadas e que podem contribuir para a indicação tanto de novas fontes como para novas versões de fatos históricos tidos como definitivos.

A terceira forma levantada por Paul Thompson é a da análise cruzada: “a evidência oral é tratada como fonte de informações a partir da qual se organiza um texto expositivo” (1999, p. 304). Um pouco mais difícil de ser concretizada nos parâmetros dos meios convencionais de comunicação, poderá ser um pouco mais utilizada na produção de livros-reportagem, por exemplo9.

Todas essas formas não desconsideram, em absoluto, a importância dos registros escritos, mas sempre com a preocupação de que “nenhum documento é inocente” (LE GOFF, 1984, p. 221) e justamente por causa disso não tem uma sustentação autônoma no processo histórico, ou seja, não pode ser considerado o “porta-voz” do acontecimento, representando somente mais um elemento para a composição do cenário histórico Um dos limites da História Oral seriam os falsos testemunhos, entretanto no processo de captação o jornalista estará sempre sujeito a este problema, por isso a checagem das informações deve ser um procedimento constante. Qualquer análise mais cuidadosa deverá sempre levar em consideração que tanto o documento escrito quanto o depoimento oral não são conclusivos nem totalmente verdadeiros, pois deve-se ter em mente que há condicionantes políticos, ideológicos e culturais permeando as informações coletadas.

Considerações finais

Repórter e fonte: um encontro possível. A História Oral pode contribuir por dois aspectos que lhe são essenciais e não muito praticados pelo jornalismo contemporâneo: dar voz aos anônimos10 e dar espaço para fatos singulares, não espetaculares. Para conseguir atingir estes dois aspectos o jornalista deve ter respeito e tolerância ao realizar a entrevista.

A proposta aqui levantada não pretende ser completa, muito menos definitiva – mesmo porque precisa haver o imbricamento entre a pauta e a própria captação -, representa somente algumas sugestões que, entre outras, precisam ser cada vez mais discutidas no ambiente dos cursos de jornalismo e também pelos profissionais da área. As pressões econômicas, políticas e culturais, entre outras, não podem servir de pretexto para o “enquadramento” da profissão às regras dos Manuais de Redação. É sabido que o jornalista não é um ser autônomo no contexto da comunicação, entretanto, mesmo com as dificuldades inerentes ao processo há vários exemplos de entrevistas veiculadas, atualmente, que contribuem para uma produção mais diversificada, o que seria interessante é a ampliação destas experiências.

A formação dos jornalistas (tanto na academia quanto no ambiente das redações) também deve ser objeto de constante discussão, já que propostas mais arrojadas só podem ser colocadas em prática por profissionais versáteis, conectados não só com o conhecimento técnico, sistematizado, mas também com as experiências de vida. A pesquisadora Maria Aparecida Baccega ao discutir a construção do campo da comunicação estabelece uma relação entre o discurso da história, da literatura e do jornalismo, que evidencia a importância do papel de mediador do jornalista na contemporaneidade.

O sujeito comunicador trabalha com o cotidiano, tal qual o escritor. Também ele terá de ter sensibilidade para desvelar o aspecto cambiante da palavra, ‘assumindo, desse modo, seu papel de mudança’. Mas, para assumir esse papel de mudança, tem que ter sentido da totalidade, tem que conhecer o passado, tem que saber elaborar/reelaborar essas duas realidades conjuntamente, dialeticamente. E isso o difere do escritor e do historiador. Se o primeiro trabalha com o cotidiano, do presente ou do passado, a partir do qual cria seu universo e nele faz circular seus personagens e, se o segundo trabalha com o passado, reelaborando-o cientificamente a partir do presente, ao comunicador competem as duas operações conjuntamente. Sem dúvida, a exigência é maior. (1998, p. 61)

Esta exigência torna-se ainda mais complexa ao se pensar que o material jornalístico produzido hoje também servirá como referência para futuros pesquisadores. Se o legado para o futuro se pautar somente pelas fontes oficiais, recorrentes, a realidade não poderá ser vista de maneira mais rica, diversificada. É preciso que o jornalista tenha disposição para escutar. “Quem não consegue parar de falar, nem resistir à tentação de discordar do informante, ou de lhe impor suas próprias idéias, irá obter informações que, ou são inúteis, ou positivamente enganosas”. (THOMPSON, 1992, p. 254,). Ser mais despojado, ao mesmo tempo possuir um repertório cultural capaz de aliar a técnica, a estética e a ética em sua prática é um desafio, difícil, mas possível de ser atingido por aqueles que não estão conformados com a própria realidade.

Notas bibliográficas

  1. Não me refiro aqui as contribuições de Philip Meyer, entre outros, que tem contribuições importantes no sentido da precisão jornalística, mas sim aos cadernos de normas e redação de alguns veículos que tentam uma padronização de procedimentos que, muitas vezes, entorpecem a criatividade tanto do processo de captação quanto da produção textual e edição das matérias.
  2. Edgar Morin define quatro tipos de entrevistas: entrevista-rito, entrevista-anedótica, entrevista-diálogo e as neoconfissões.
  3. Como afirma Felipe Pena (2005) a objetividade não pode ser definida em oposição a subjetividade, ao contrário, ela representa um método que pode assegurar um rigor científico ao se reportar a realidade.
  4. Neste trabalho, o termo entrevista é utilizado em um sentido mais autônomo da produção jornalística, já que o termo entrevista também pode usado para a checagem de certas informações, bem como para alimentar determinadas matérias com declarações de entrevistados.
  5. Importante registrar os livros de Mário L. Erbolato, José Marques de Melo, Luiz Beltrão e Juarez Bahia. Ver as referências completas destes autores na Bibliografia deste trabalho.
  6. Um trabalho escrito por Joëlle Rouchou levanta algumas questões, de um modo mais geral, que evidenciam a proximidade entre a história oral e a técnica de entrevista (Ver Referências Bibliográficas). Em minha tese de doutorado, intitulada “Quadros radiofônicos: memórias da comunidade radiouvinte paulistana (1930-1950)”, também utilizo o recurso da história oral e da entrevista – por intermédio da pesquisa de recepção – com o objetivo de recuperar o ambiente radiofônico da época, inclusive do radiojornalismo.
  7. A fim de produzir uma reportagem sobre os anônimos que utilizam o Metrô paulistano cotidianamente, fiquei cerca de 10 dias, alternados, fazendo caminhadas entre a estação Jabaquara e as ruas que circundam a região, tanto geográfica quanto culturalmente acabei indo parar em lugares inimagináveis (pelo menos para mim). O resultado dessa reportagem pode ser conferido no livro organizado por Cremilda Medina (1999).
  8. Vale ressaltar que a metodologia da História Oral pode ser utilizada pelos meios impressos, radiofônicos, televisivos e digitais (massivos ou não) e, ainda, pelas mídias radicais, comunitárias ou alternativas.
  9. Edvaldo Pereira Lima (1993) apresenta relevante trabalho sobre a ampliação do jornalismo por intermédio dos livros-reportagem.
  10. Este é um dos aspectos da História Oral, que, por outro lado, também pode ser usada para estudos de determinadas instituições e/ou grupos sociais como empresários, militares, entre outros.

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